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Eu tenho ouvido absoluto?

O teste de ouvido absoluto: doze sons, um de cada vez, sem nada para comparar. Toque na nota que você acha que era. No fim você ouve os doze e vê quantos acertou e quantos ficaram a um semitom.

Mika, o residente

O Mika toca cada nota uma vez e fica quieto até o fim. Depois toca as doze de novo.

Doze rodadas, cada nota uma vez. Cada som tem seu próprio timbre e salta longe do anterior. Chutando, acerta-se uma em doze.

Antes de cada som vem um chiado curto que apaga o anterior do ouvido. Você só fica sabendo como foi no fim, não depois de cada som. No iPhone, a chave de modo silencioso desliga os sons.

Como ler o seu resultado

De 0 a 2 acertos: é a faixa do acaso, e é onde quase todo mundo fica. 3: um pouco acima. De 4 a 6: a sorte já quase não explica. Em geral há uma nota que você conhece bem, o Lá de afinar ou a primeira nota de uma música que você ouviu mil vezes, e você mede as outras a partir dela. De 7 a 10: você lembra como soam várias notas, e pouquíssima gente consegue. 11 ou 12: é onde ficam as pessoas com ouvido absoluto. Nas pesquisas, costuma contar como ouvido absoluto acertar de 85% a 90% das notas (Deutsch e colegas, 2006, usaram 85%).

Olhe também os erros de um semitom. Errar muitas notas por um semitom é estar perto: até quem tem ouvido absoluto confunde mais as notas vizinhas, principalmente nas teclas pretas, e muitos testes de pesquisa dão meio ponto por isso. A oitava não conta aqui: Dó grave e Dó agudo são os dois Dó. E uma rodada é uma foto do dia. Refaça em outro dia, de preferência com fone: o alto-falante do celular colore o som, e algumas pessoas com ouvido absoluto reconhecem notas de piano bem melhor do que sons eletrônicos simples como estes (Baharloo e colegas, 1998).

Por que o resultado só aparece no fim

Cada uma das doze notas toca uma vez, em ordem aleatória, entre Dó3 (130,8 Hz) e Si5 (987,8 Hz), e cada uma salta pelo menos uma quinta da anterior, para você dizer a nota e não o quão aguda ela soa. Cada som tem um de quatro timbres, sorteado, para nenhuma nota se entregar pela cor. Antes de cada som, um chiado curto limpa o ouvido. E você só vê as respostas no fim, porque saber a nota anterior é ganhar uma referência: com ela, o ouvido relativo deduz a próxima. É aí que muitos testes em vídeo falham. Mostram a resposta depois de cada nota e acabam medindo o ouvido relativo.

Como saber se tenho ouvido absoluto

Ouvido absoluto, ou audição absoluta, como também se diz, costuma dar sinais cedo e sem esforço. Você sabe, sem pensar, que o micro-ondas apita em Fá sustenido ou que a música no rádio está em Mi bemol maior. Uma banda que toca a música mais grave do que na gravação soa errada para você, não só diferente. Você canta um Lá sem ter ouvido um antes. Se dar nome à nota parece fazer conta, é quase sempre ouvido relativo com uma nota de memória como âncora. Se parece reconhecer uma cor, aí é o absoluto.

Sem saber o nome das notas também dá para testar a memória de altura. Escolha um som do dia a dia, o bipe do celular ou do micro-ondas, cante e veja com Qual nota estou cantando? que nota saiu. Meia hora depois, sem ouvir o som de novo, cante outra vez e compare. Ou cante o começo de uma música que você sempre ouve na mesma gravação e confira com a gravação. Muita gente sem ouvido absoluto acerta assim o tom das músicas favoritas por um ou dois semitons (Levitin, 1994). Memória de altura quase todo mundo tem. Raro é saber o nome.

O que é ouvido absoluto e a diferença entre ouvido absoluto e relativo

Ouvido absoluto é dizer ou cantar uma nota sem ter ouvido outra antes: ouvir a buzina do vizinho e saber que é um Fá. Em inglês se diz perfect pitch ou absolute pitch, e às vezes se fala em ouvido perfeito. É menos uma questão de ouvido do que de memória: o cérebro liga uma altura fixa a um nome fixo, como você reconhece o vermelho sem precisar de um azul do lado. Quem só reconhece as notas tem ouvido absoluto passivo. Quem canta de primeira uma nota pedida, ativo. Este teste mede o passivo.

O ouvido relativo ouve distâncias: sabendo uma nota, você acha as outras. É o que quase todo músico usa para tirar música de ouvido e improvisar, e ele se treina em qualquer idade, por exemplo com o treino de intervalos musicais. Ter ouvido absoluto também não é o mesmo que cantar afinado. São habilidades diferentes.

Quão raro é o ouvido absoluto?

A estimativa clássica para a Europa e a América do Norte é de uma pessoa em cada dez mil (Bachem, 1955; nunca medida numa grande amostra aleatória). Entre músicos é bem mais comum, e aí pesam duas coisas: a idade em que a pessoa começou a estudar música e a língua materna. Diana Deutsch e colegas testaram em 2006 estudantes de conservatório em Pequim e na Eastman School, nos Estados Unidos. Entre os que começaram aos 4 ou 5 anos, cerca de 60% em Pequim passaram no critério de ouvido absoluto, contra uns 14% nos EUA. Entre os que começaram aos 8 ou 9: cerca de 42% em Pequim, nenhum nos EUA.

Diana Deutsch atribui a diferença à língua, não à origem: em mandarim, cantonês ou vietnamita a altura muda o sentido da palavra, e a criança aprende alturas como nomes. Estudantes de origem asiática que não falavam uma língua tonal com fluência não se saíram melhor que os outros (Deutsch e colegas, 2009). O português não é tonal, então essa vantagem não existe para quem cresceu falando português.

Ouvido absoluto pode ser desenvolvido?

Por muito tempo a resposta foi não, e ainda é a que mais se ouve. Para a maioria dos adultos continua valendo; para alguns, não. Num estudo da Universidade de Chicago (Van Hedger, Heald e Nusbaum, PLOS ONE, 2019), seis adultos treinaram por oito semanas. A maioria melhorou pouco, mas quem mais aprendeu passou depois em todos os testes de ouvido absoluto, com oito timbres de instrumento e sete oitavas, e ainda o tinha quatro meses depois. Um estudo de treino em Hong Kong (Wong e colegas, 2020) chegou a um quadro parecido: depois de 12 a 40 horas de treino, 6 de 43 adultos (14%) acertaram as doze notas com pelo menos 90% de precisão; a maioria melhorou só em parte. Em 2026, então: possível para alguns, garantido para ninguém. Quem guarda bem o que ouve parece ter mais chance (Van Hedger e colegas, 2015).

Na infância é outra história. Quase todos que têm ouvido absoluto estudaram música com nomes de nota desde cedo, em geral antes dos seis ou sete anos. Quem cresce falando uma língua tonal tem mais chance, mesmo começando um pouco depois (em Pequim, cerca de 42% dos que começaram aos 8 ou 9). Há também um componente de família: irmãos de quem tem ouvido absoluto o têm muitas vezes mais do que outros músicos (Baharloo e colegas, 1998). Já o estudo do cérebro citado em muitos sites mostra que músicos com ouvido absoluto têm uma assimetria maior para a esquerda no plano temporal, uma área do lobo temporal (Schlaug e colegas, 1995, Düsseldorf). Ele mostra a diferença, não diz de onde ela vem.

Treino de ouvido absoluto: um plano que faz sentido

  1. Dez a quinze minutos por dia. Curto e todo dia rende mais do que longo no fim de semana.
  2. Comece com duas ou três notas bem separadas, como Dó e Sol. Acrescente uma quando acertar nove de dez.
  3. Varie timbre e oitava. Quem treina só o Dó do piano aprende um Dó de piano, não uma nota.
  4. Deixe tempo ou ruído entre uma nota e outra. Senão você calcula pelo ouvido relativo e treina a coisa errada.
  5. Crie âncoras: a primeira nota de uma música que você sempre ouve na mesma gravação, o Lá de afinar. Âncora ainda não é ouvido absoluto, mas é um começo. O gerador de tons toca qualquer nota para conferir.
  6. Uma vez por semana, sem resposta no meio: faça este teste e anote o número. Se ele sobe de 2 para 5 ou 6 ao longo das semanas, você está aprendendo de verdade.

Como testar ouvido absoluto em criança

Se a criança já sabe o nome das notas, por exemplo das aulas de piano, este teste serve para ela também. Se não sabe, use o teste sem nome de nota lá de cima: peça para ela cantar a música favorita em dias diferentes e veja com Qual nota estou cantando? se ela começa sempre na mesma nota. Isso mostra boa memória de altura, ainda não ouvido absoluto. Música com nome de nota desde cedo favorece, mas ninguém garante.

Ouvido absoluto e autismo

Entre pessoas no espectro autista, o ouvido absoluto é descrito com muito mais frequência do que na média (Heaton, 2003), e músicos com ouvido absoluto têm, em média, pontuações um pouco mais altas em questionários de traços autistas, sobretudo em troca de atenção e imaginação, bem abaixo do nível clínico (Dohn e colegas, 2012). Isso vale para grupos, não para uma pessoa: ouvido absoluto não é sinal de autismo, e a maioria das pessoas autistas não tem.

Michael Jackson tinha ouvido absoluto? E os outros famosos

Michael Jackson aparece em quase toda lista de famosos com ouvido absoluto, ao lado de Mariah Carey, Jimi Hendrix e Beethoven, mas essas listas não citam nenhum teste. O mesmo vale para os artistas brasileiros que circulam nelas. Bem documentado é o caso de Mozart: em 1792, o trompetista da corte de Salzburgo Andreas Schachtner contou que o pequeno Wolfgang percebeu que o violino de Schachtner estava afinado meio quarto de tom abaixo do dele. A maioria dos grandes músicos, de qualquer época, trabalha sem ouvido absoluto.

Teste de ouvido relativo

Se o resultado aqui ficou perto do acaso, o teste que importa para fazer música é outro. O teste de ouvido musical mede altura, intervalos, melodia e ritmo. O treino de intervalos exercita o ouvido relativo, dez intervalos por dia. E o Sou desafinado? mostra se você ouve qual de dois sons é mais agudo e se duas melodias curtas são iguais.

Depois, faça algo com isso

Seja qual for o resultado, os doze sons que você ouviu entram no Brumm como melodia, no tempo, dentro de uma faixa de música eletrônica com batida e baixo. Cantarole ali a sua própria linha e ela vira um instrumento. Sem conta, sem upload. O app está em inglês.

Suas respostas ficam no navegador. Só se você tocar em Sim ou Não embaixo do resultado, o resultado vai junto, com o que você escrever. Como o site conta as visitas.

Áudio: tons que o seu navegador gera nesta página; sem microfone. Nada do áudio chega à contagem de visitas.

Como este teste funciona

Rodadas
Doze: cada nota da oitava uma vez, em ordem aleatória, sem nota de referência, e suas respostas só aparecem no fim.
Acaso
No chute se acerta, em média, uma de doze. Dois acertos ou mais o chute consegue mais ou menos uma vez a cada quatro tentativas; quatro ou mais, só uma vez a cada 72.
O que não significa
Um resultado baixo não diz nada sobre o quanto você é musical, porque quase ninguém tem ouvido absoluto; um alto com tons de celular é um sinal forte, não um diploma.